O pseudo-Mestre

Em um mundo em que se sustenta a todo o custo uma “necessidade” de lideranças para um grupo de pessoas ou mesmo para a massa, afloram (e sempre afloraram) aqueles sujeitos bastante espertos que ocupam um lugar de prestígio e que estão longe de ser lá tudo o que dizem ser. Providos de um discurso rebuscado, sedutor, excelentes em oratória e retórica; estes indivíduos poderiam até ser comparados como sofistas da era Pós-Moderna. Eu chamo-os, se me permitirem o neologismo, de pseudo-mestres“.

O mundo é "bão", Sebastião!

O mundo é “bão”, Sebastião!

Espalhados aos quatro cantos do mundo, os pseudo-mestres desfrutam das premissas naturalizadas que de o ser humano deve governar e ser governado. A ideia de sermos um grande rebanho a ser pastoreado por alguém [ou alguma entidade divina] abre espaço para as mais diversas formas de poder, controle e até mesmo as mais escusas manipulações. De pequenos vigaristas e falsários até grandes corruptos, esta estirpe penetra nas camadas sociais como um vírus: não visível a olho nu, mas de ação facilmente multiplicável. No Brasil, a situação se intensifica devido a nossa herança lusófona do “Sebastianismo” – um messianismo oriundo da morte do rei Dom Sebastião I de Portugal, morto em batalha em 1578. Com a crise na dinastia portuguesa, o povo alimentou a crença de que a situação política do país seria resolvida após a volta (a “ressurreição”) do rei. Chegando às terras tupiniquins, apesar de tomar uma roupagem diferente, a ideia permanece a mesma: alguém, uma grande e renomada figura, um dia irá salvar o país (e claro, os numerosos oportunistas se aproveitaram e ainda se aproveitam da fé cega do povo). Assim, o Sebastianismo brasileiro também retroalimenta o surgimento dos falsos mestres.

falso_guruSeria difícil delinear aqui um perfil exato dessas ilustres figuras, mas é possível apontar alguns comportamentos [com probabilidade] em comum: São pessoas que possuem uma resposta, diga-se de passagem muito em estruturada, para quase tudo. O controle da situação e das conversas é uma de suas principais habilidades e tudo aquilo que é pautado em uma discussão deve antes (ou um pouco depois) passar pelo seu glorioso parecer. É comum que demonstre certo ‘eruditismo’, sagacidade e conhecimentos em mais de uma área de saber (embora no primeiro contato pareçam ter conhecimento profundo dos assuntos, alguns deles não passam de Wikipédias ambulantes). Porém, uma coisa é certa: eles parecem muralhas inabaláveis.

E ele diz: "pula da ponte!", e o povo vai...

E ele diz: “pula da ponte!”, e o povo vai…

Ainda sim, uma análise mais detalhada das ideias defendidas pelo “pseudo-mestre” acaba por entregá-lo e ruir o muro que construíram. Imaginemos, para servir-nos de exemplo, um reles guru que circunda pessoas sedentas pelo saber e que juntou um grupinho “especial” para propagar suas ideias torpes. Então temos: 1) O pseudo-mestre em questão defende a ideia básica que seres humanos pertencem a uma “cadeia evolutiva” darwiniana e que devem desenvolver-se continuamente (já que ele não é o fim de tudo e não foi esboçado), ao mesmo tempo em que afirma que o corpo humano “foi projetado para algo…” – não deixando claro se a existência humana é um simples resultado do acaso da união de certas estruturas atômicas ou se somos personagens no The Sims de alguma deidade ou algo do tipo; 2) Ele critica todos os sistemas governo, as estruturas econômicas, políticas e tudo mais, porém afirma com unhas e dentes que o problema do país não perpassa pela má distribuição de renda e pela alienação e controle do povo, mas sim que este é um problema de cada um, que deverá iluminar-se e evoluir por si só (num darwinismo social que beira ao ridículo); 3) Se ele pertence ou já possui uma organização (seja ela religiosa, desportiva, política, filosófica, etc.), geralmente vai fazer de tudo para tentar demonstrar que a atividade que ele realiza é a única (ou a melhor) que levará o ser humano para total realização e plenitude, tentando fazer com que todos a sua volta também sejam membros de seu seleto grupo/organização; além de outros shows de horrores proferidos por esses sujeitos bizarros. Geralmente, todos os conhecimentos que ele propaga são como uma salada de frutas que os neófitos engolem goela abaixo e sem mastigar.

Wander Lee, um exímio mestre do Fin Jutsu. Créditos: http://perolasmarciais.blogspot.com.br/

Wander Lee, um exímio mestre do ‘Fin Jutsu’.
Créditos: http://perolasmarciais.blogspot.com.br/

Como me disse uma vez o meu célebre professor de Kung Fu: “Cada um tem o professor que merece”; ou nas palavras espirituosas de um de meus conhecidos: “A cada dia sai um burro de casa”. Verdade ou não e chistes à parte, o certo é que nos dias atuais torna-se cada vez mais complicado não escorregar e cair nas garras desses canastrões. Quanto mais inocente ou ignorante for o indivíduo (quanto mais “parte do rebanho” ele for), maior a probabilidade de ser alvo de algum aproveitador ou espertalhão; mais chances tem de ser enganado: é carne fresca, presa fácil! É claro que os verdadeiros motores, razões ou circunstâncias que fazem uma pessoa cair na lábia do falso-mestre são inúmeros. Poderíamos apontar a falta de referências e a inversão de valores; a cruel miséria herdada por gerações de termos uma figura orientadora e que ‘cuide’ de nós; ou se é apenas puro comodismo como alguns dos motivos também. Apesar de toda especulação, uma coisa é certa: é preciso ter muito cuidado para não cair nas engenhosas armadilhas do falso-mestre, pois é bem provável que você não possa nem se dar conta disso. Daí, lá se vai seu dinheiro, seu tempo e sua dignidade.

Por fim, cabe ressaltar que seria errôneo dizer e pensar que todos se comportam da maneira que foi descrita anteriormente, pois senão esse artigo se tornaria mais um “Mentes Perigosas” em que só faltaria a autora dizer-lhes que o seu vizinho é um vigarista de primeira. Mesmo assim, há certos pontos identificáveis que podem ou não dar indícios da existência do mestre charlatão – e, bom: vale mais viver longamente porque teve cuidado do que morrer sem ao menos ter visto o caminhão que o atropelou. OK! Chega de gracejos mórbidos! Mas compete dizer que um pouco de crítica, reflexão, cautela e pesquisa não fazem mal a ninguém – pelo contrário, podem retirar a querida e o querido leitor de uma grande roubada.

Especial Serial Killers: Richard Speck – Nascido para dar um “up” no Inferno

Realmente faz um bom tempo o qual não atualizo este especial. Não irei me delongar com desculpas esfarrapadas, lágrimas de crocodilo derrubadas ou qualquer outro pretexto que tenha a ver com “ocupações” ou “falta de tempo”. O fato é que… Pasmem! Senti falta de sangue e cá estou eu. Então, estão prontos e com estômago para aguentar mais uma figura do Especial Serial Killers?

Inferno de Dante, por Gustave Dore

Inferno de Dante, por Gustave Dore

Inferno é uma palavra de origem latina que advém do infernum, e que significa literalmente “as profundezas” ou “mundo inferior”¹. Utilizada por diferentes religiões e filosofias, obviamente esta palavra, ou melhor, esta ideia de um lugar pós-morte foi marcada tanto pela concepção de cada povo que a mencionou (pelas características culturais), como também pelo momento histórico de cada civilização/sociedade. Desde a Grécia com o reino de Hades, o Tártaro; até o Yomi no Kumi dos japoneses, a humanidade sempre buscou representar alegoricamente o trajeto da “alma” após a ultrapassar a barreira vida terrena. Porém, nem sempre o lugar de “danação” representou realmente um martírio ou até mesmo se fazia depois da morte – para os budistas, por exemplo, toda a dor e o sofrimento se fazem durante a vida pelo Samsara (roda de encarnações). Embora alguns ocidentais atualmente tenham contato e liberdade para as mais diversas concepções de um “outro mundo” – ou até mesmo para não acreditarem nisso, o fato é que praticamente todo o Ocidente foi fortemente influenciado pela concepção dantesca (Dante Alighieri), a qual se constituiu todo o imaginário acerca do lugar ardente em que os hereges irão pagar seus pecados pela eternidade. Assim, há quem tema a simples ideia de passar um segundo no inferno; há quem rejeite essa visão considerando-a fruto de mentes pueris e manipuladas; e há ainda aqueles que no auge de sua subversão se consideram os próprios filhos do Belzebu, aqueles que se acham ou que são considerados por outros (jocosamente ou não) como filhos do inferno, nascidos para povoar aquele lugar e quem sabe reinar. É de um desses ditos-cujos a quem o Especial Serial Killers irá tratar agora: Richard Speck.

Richard Franklin Speck nasceu em Kirkwood, no estado de Illinois, nos Estados Unidos, no ano de 1941. Ele foi o sétimo filho de uma ‘pequena’ família composta por oito filhos. Como de praxe em quase toda família do interior cuja casa é cheia de rebentos, a família de Speck era bastante religiosa – principalmente sua mãe, que era contra todas as coisas “mundanas” da vida. O pai de Speck faleceu quando o garoto tinha apenas seis anos de idade, o que levou sua mãe a se casar novamente e mudar-se com a família para o estado do Texas. Porém, o novo amor da senhora Speck era um inveterado bêbado e agressor que, quando não batia na esposa, agredia os enteados (em especial Rich Speck) e depois sumia do mapa para voltar sabe-se lá quando, novamente bêbado.

speck1Com tantos ‘bons’ exemplos e situações funestas em casa, obviamente Rich Speck não tinha um bom desempenho na escola e desde os 12 anos começou a beber. Quando adolescente, fez a linha clássica ‘envolver-se com maus elementos e entupir-se de drogas’. Detalhe: desde criança ele tinha fortes dores de cabeça que, segundo especulam, eram devidas a possíveis traumatismos cranianos³. Aos 19 anos deu-lhe na cabeça que queria fazer uma tatuagem e como não tinha a mínima ideia do que rabiscar em sua pele para toda a eternidade, acabou optando pela frase “Born to raise Hell” (algo como “Nascido para fazer o Inferno crescer” ou “… para encher o Inferno”) no seu antebraço.

Não tardou para que seu comportamento adolescente e inconsequente o levasse a ter passagens pela polícia por furtos, extorsões e mais alguns delitos. Porém, estava logo à solta após a sua família pagar a fiança. Quando Speck engravidou uma de suas “peguetes”, em 1961, logo se pensou que ele finalmente tomaria juízo ao casar-se. Ledo engano, pois embora ele tivesse alguns empregos formais, mesmo assim continuava a beber, sair com várias prostitutas e violentar a esposa. Ele estava preso quando sua filha nasceu e relata-se que tinha um comportamento sexual extremamente agressivo e compulsivo com a esposa. Em 1965, foi acusado de tentativa de estupro e homicídio, mas reduziu sua pena alegando que estava bêbado e não se lembrava do que teria feito. Ele permaneceu cinco meses preso, o que deu o momento oportuno para sua esposa pedir o divórcio. Em versão moderna de Peter Pan, Speck voltou para sua terra natal a fim de recuperar sua infância perdida. Tentativa malograda, principalmente após saber que sua ex-mulher rapidamente se casou com outro (e que provavelmente estava muito feliz). Rich Speck então foi tentar uma nova vida em Chicago.

Foi em Chicago que o jovem Speck (que na época tinha 24 anos) assassinou friamente oito estudantes de enfermagem do Hospital Comunitário da cidade, em 1966. Ele estava bêbado e portava um revólver e uma faca. Somente uma estudante sobreviveu. Corazón Amurao conseguiu salvar sua vida escondendo-se de baixo da cama. O cenário era quase uma pintura terrivelmente assustadora: Gloria Davy estava com as mãos amarradas para trás e uma fita de pano estava entorno do seu pescoço. No outro andar as outras sete estavam dispostas com de modo semelhante – o que denota o modus operandi de Speck; com enforcamento e mãos amarradas. Algumas também haviam levado facadas, uma delas tinha um travesseiro cobrindo o rosto e outra estava nua com as pernas abertas. Ele usou como instrumentos extras tudo o que havia no local, desde o vestuário das moças até objetos. Os policiais, quando chegaram ao local, ficaram absolutamente perplexos. E onde estava o autor do crime? Tinha ido a uma lanchonete comer alguma coisa.

À medida que o procuravam, Speck andava entre bares, restaurantes e estabelecimentos gabando-se de feitos fictícios que nada tinham a ver com a morte das enfermeiras. Chegou até mesmo a inventar que teria ido ao Vietnã. Porém, ao cruzar os dados fornecidos pela sobrevivente, os policiais o rastrearam até o Hotel em que estava hospedado. Ainda sim, ao perceber que os guardas apareceram, ele se escondeu e fugiu para outro hotel no norte da cidade dando um nome falso. Apesar de tudo, Rich Speck ainda buscou uma prostituta e levou-a para o quarto. Na manhã seguinte, a moça disse ao atendente que ele [Speck] tinha uma arma no quarto. Obviamente, a polícia foi chamada para averiguar a situação. Encontraram os documentos de Richard Speck, porém, o problema é que eles não tinham a mínima ideia de que ele era o homem procurado pelos crimes. Levaram a arma e foram embora. No auge do seu sentimento de invulnerabilidade, Speck voltou com a sua peregrinação entre os bares como se nada tivesse acontecido.

Enquanto vagueava e farreava pela cidade, o exame pericial confirmou que as digitais encontradas na cena do crime pertenciam a Richard Speck. Rapidamente, toda a imprensa local já estava anunciando o nome e divulgando o rosto do criminoso. Speck viu seu lindo rosto nos jornais, correu desesperadamente para o hotel e lá mesmo lascou um belo corte seu punho (sim gente, é cortar o PUNHO e daí perde-se gradativamente o pulso). Contudo, como todo bom “arregão”, Speck se arrependeu do corte feito e do sangue a jorrar. Um dos amigos de diversão nos bares o encontrou e, como havia reconhecido-o nos jornais, ligou para a delegacia e denunciou Speck. Entretanto, mais uma vez a polícia de Chicago mostrou toda sua efetividade na época não comparecendo no local (provavelmente devem ter pensado, creio eu, que se tratava de um trote). O fato é que Speck foi de táxi para um hospital e lá que ele cavou sua sepultura. A bendita tatuagem o havia entregado… Um médico residente do hospital reconheceu o rosto, identificou a tatuagem, pegou-lhe pelo pescoço – por pouco não o agrediu, e chamou a polícia do hospital. Bingo!

Richard-Speck2No julgamento Speck negou constantemente o ocorrido com as enfermeiras. Além disso, ele já havia sido acusado de outros crimes e assassinatos os quais conseguiu contornar com maestria. Nos contatos com o psiquiatra forense, ele abusava da ironia ; até o dia em que cedeu e disse, em julgamento, que no dia do crime estava bêbado e que pretendia apenas efetuar um roubo. Mentira pouca é bobagem, não? O fato é que mesmo depois de negar e mentir descaradamente, Richard Speck foi condenado à pena de morte na cadeira elétrica. Porém, devido a uma alteração nas leis estaduais em 1972, sua pena foi comutada para prisão perpétua – algo rápido em torno de uns 300 a 1000 anos, por aí.

Foi na prisão que Speck simplesmente deitou e rolou: usava drogas, cantava, escutava músicas, pintava quadros e até mesmo a própria cela. Em um vídeo feito na década de 80, ele aparece entre cenas de sexo e uso de drogas. Quando questionado sobre os crimes cometidos, ele limitava-se a dizer que não sentia nada, nem mesmo remorso, além de ater-se às dificuldades (diga-se aos aspectos técnicos) de estrangular pessoas. Por fim, Rich Speck morreu de enfarto. Antes disso, foi realizada uma necropsia que revelou alterações neuroanatômicas na amígdala e no hipocampo. Obviamente, a família rejeitou o corpo e ele acabou sendo cremado – pelo fogo ‘nasceu’ e pelo fogo foi consumado.

-> Comentários aleatórios: Como de praxe na maioria das histórias já apresentadas aqui, há alguns pontos merecedores de nota: 1) A relação familiar; 2) A possível existência traumatismo ou lesão cerebral, reforçada posteriormente na necropsia; e 3) O comportamento delinquente. Deve-se deixar bem claro que nenhum desses pontos é mais “importante” do que o outro, tendo em vista que o ser humano é um ser complexo e multifatorial – um ser biopsicossocial; nada mais interessante do que pensar nesses fatores em conjunto. Ressalto também que o objetivo aqui não é fazer uma análise profunda sobre o caso, isso ficará a cargo dos especialistas; o interesse aqui é apenas levantar esses pontos da história de vida do indivíduo.

O primeiro ponto, o da Relação Familiar, é digno de qualquer aspirante a um Freud silvestre (ou Psicanálise silvestre) deleitar-se por horas e horas em elucubrações sobre a dinâmica pai-mãe-filho; a morte prematura do pai de Speck; o padrasto violento e a mãe submissa. O fato é que grande parte dos assassinos em série aqui já retratados tiveram relações familiares extremamente complexas, conturbadas, violentas (e evidente, bastante violadoras). Isso não quer dizer que a morte prematura de um parente ou a separação dos pais seja um fator preponderante para o desencadeamento de alguma patologia – longe disso! Aliás, há muito mais famílias que não se encaixam na dinâmica normativa (tida como “normal”, o tradicional pai-mãe e filhos que compartilham do vínculo sanguíneo) que conseguem viver de forma saudável do que aquelas que possuem um padrão nocivo e doentio. O que se pretende apontar é que nestes casos específicos aqui retratados as relações familiares, as imagens construídas a partir dessas relações e os modelos de comportamento daí originados foram importantes e definidoras exatamente para os casos específicos. Speck, por exemplo, não teve nenhuma imagem paterna, ninguém que pudesse suprir essa função paterna e, certamente, fazer o papel de Lei, de intercessão, de ordem, de limite e de exemplo. A falta dessa referência por muitas vezes pode perseguir alguém pela vida inteira. Dizendo de uma maneira torpe, o “nome-do-pai” pode ter sido um calvário para o jovem Speck.

Já que se havia comentado na biografia de Richard Speck sobre uma possível Lesão Cerebral. A necropsia revelou alterações substanciais em regiões hipocampais e da amígdala. O que isso quer dizer? Simples: que Speck tinha lesões nas áreas cerebrais correspondentes à produção emocional e regulação do comportamento. O hipocampo é uma estrutura cerebral que compõe o sistema límbico (sistema responsável direto pelas respostas emocionais) e que está associado com a memória de curto prazo (imediata) e a de longo prazo. É conhecido que lesões hipocampais podem causar aos indivíduos a sensação de estarem sempre vivendo tudo como algo novo e estranho, já que a capacidade de armazenamento e recuperação da memória específica sobre novos fatos e eventos encontra-se lesionada. É como se tudo ao redor se desvanecesse. A amígdala é outra estrutura do sistema límbico que mantém relações estreitas com o já mencionado hipocampo. Sua função é ser um “sensor” dos padrões sensoriais, regulando o comportamento sexual, as respostas emocionais e de fuga-ou-luta, além da agressividade. Obviamente, lesões nessa região podem levar ao comportamento excessivamente agressivo e de natureza sexual descontrolada, além de problemas de aprendizagem. Qualquer semelhança com nosso sujeito em questão é mera coincidência.

O segundo ponto logicamente nos leva ao terceiro: o Comportamento Delinquente de Rich Speck. !, mas é claro que alterações cerebrais vão levar a alterações comportamentais, não é mesmo? Pode ser que sim, mas não necessariamente deve existir uma alteração no aparato neurofisiológico para que um indivíduo possa apresentar padrões de comportamento tidos como transgressores. Aliás, o comportamento e a sensação de ser “invencível e intocável” é muito comum em adolescentes que, na flor de seus hormônios, pensam que nada de errado pode acontecer com eles; e com isso podem fazer tudo. Em alguns indivíduos isso pode ir ao extremo, causando dano aos que convivem em seu entorno. Só o tema do comportamento delinquente renderia centenas de artigos, porém vamos nos ater apenas as constantes violações de regras e danos causados a outrem – característicos do Transtorno de Conduta e Transtorno de Personalidade Antissocial. Pesquisas mostram que esses comportamentos desadaptativos⁴, em geral, encontram-se ligados à gratificação imediata dos indivíduos e o evitar/neutralizar as exigências do ambiente social. Ou seja, o modo como se dão as interações com o ambiente familiar são de suma importância para os ditos “delinquentes” ou “anti-sociais”. Além disso, não devemos excluir as condições culturais e socioeconômicas – absolutamente nada e nem ninguém deve ser considerado como isolado de seu contexto.

richard-speck-chicagoPor fim, resta falar dos filmes, músicas, bandas e outros meios que citam Speck: 1) O suspense “Chicago Massacre: Richard Speck” (2007), de direção de Michael Feifer; e o filme de terror “100 Ghost Street: The Return of Richard Speck” (2012), de direção de Martin Andersen. Além de citações em outros filmes. 2) Um dos eventos noticiados na música “7 O’Clock News / Silent Night” da dupla Simon & Garfunkel é o julgamento de Speck; o tecladista original da trupe de Marilyn Manson usava o pseudônimo “Zsa Zsa Speck”; além da banda japonesa de Doom Metal, Church of Misery, compôs a música “Born to Raise Hell” – banda também tem outras composições sobre assassinos em série como Ed Gein e John Gacy.

Referências:

  1. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio Século XXI Escolar: o minidicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 790.
  2. MONTALDO, Charles. Richard Speck – Born to Raise Hell. Disponível em: About.com.
  3. Wikipedia. Richard Speck. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Speck>
  4. PACHECO, Janaína T. Barbosa. A construção do comportamento anti-social em adolescentes autores de ato infracionais: uma análise a partir das práticas educativas e estilos parentais. Porto Alegre: UFRS, 2004. 120 p. Disponível em: < http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/6132/000525387.pdf?sequence=1>.

Textos Livres: Apenas Signos

Escrevo e não sei bem o motivo. Não vou encher-te de inúmeros signos apenas para o deleite. Não quero que cada palavra se torne vazia. Não desejo que cada sentença se transforme em dupla condenação.

Ainda escrevo e não encontrei o motivo. Disperso pensamentos rumo a lugar algum. Descrevo o nada e torno-o redundante. Faço dos vácuos o espaço para criar.

Escrevo pelo puro prazer de desorganizar as palavras. Escrevo pelo desejo de destruí-las.

Agora tudo é apenas desejo de destruição e vertigem.

 

Textos Livres: O Tempo Oportuno

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Tudo o que eu precisava naquele momento era de silêncio. Não necessariamente um silêncio “absoluto”, apenas não queria ouvir as vozes familiares ou escutar qualquer outro ruído cotidiano.

Levantei, peguei meu livro e caminhei. Andei errantemente até nem saber por onde ia. Apenas sentei-me em um banco de um parque público. Observei cautelosamente o movimento do lugar; as pessoas, os animais e o delicado balançar das folhas quando eram carinhosamente abraçadas pelo vento. Abri o livro e comecei a ler. Facilmente me dispus a viajar e fazer parte daquela história.

Ao fundo, tocava alguma música de alguém bastante conhecido. Porém, não me importava seu nome no momento. O que mais importava era que a música ressoava profundamente em mim. Tudo pareceu se estender, aumentando a sensibilidade e importância – a história, a música, a realidade, a fantasia e eu mesma.

Foi naquele simples instante, naquele Tempo sem tempo, que eu percebei e senti algo único: me senti imensa… Eterna.

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Textos Livres: O sonho, o velho e outros escritos

Casa-estrada                Eu estava caminhando por uma estrada de terra. Era uma terra batida, vermelha e um pouco úmida. O caminho era cercado por árvores de copas altas, algumas um pouco secas, além de matas rasteiras. Uma paisagem diferente do que eu já havia visto, mas sentia que era muito familiar. Apesar de aparentemente ser de manhã, o céu acinzentado impedia qualquer visão do Sol.

                Após algumas horas peregrinando na beira da estrada, cheguei à porteira de uma pequena propriedade. A porteira estava aberta, um convite para qualquer espírito curioso como o meu. Adentrei no recinto e resolvi vasculhar até que encontrasse uma alma viva. Dentro da propriedade havia uma pequena casa de dois cômodos, já gasta pelo tempo; a casa era branca, porém corroída e desgastada pelas intempéries. Seu telhado de palha continha também algumas espaças telhas quebradas, o que lhe oferecia um ar rústico. Apesar do aspecto abandonado daquele casebre, nada era tão amedrontador do que a grande árvore seca que se escondia por detrás do imóvel. O Tempo havia sido extremamente cruel com aquele lugar.

                Sem que ao menos pudesse esperar, ao virar as costas dei de cara com o dono da propriedade: um velho com a face desgastada e marcada pelo tempo, blusa branca desbotada e uma calça marrom (quase “pega-frango”). Seu chapéu de palha dava-lhe um ar de personagem caipira oriundo de algum filme de terror trash. Naquele instante, meu coração veio até a garganta, batendo em ritmo acelerado. O meu corpo inteiro suava frio, mas o velho sequer disse uma palavra. Ele apenas apontou para os fundos da casa em que de longe, muitíssimo longe, se avistava um lago.

                Voltei-me para fitá-lo e agora o velho exibia um sorriso amarelado em sua face. A sensação foi horrível. Seu olhar era profundo, cortante, como se fizesse a minha alma partir em mil pedaços. Apesar de não dizer nenhuma palavra, sentia que estávamos tendo uma longa e intensa conversa. A impressão que tive a todo o momento era a de que eu já o conhecia, mas isso não apartava ar pesado e a sensação ruim que toda a situação me transmitia. Assim, ele estava escorado na porta da casa e fez sinal que eu entrasse. Nunca me senti tão mal e com tanto medo, mas resolvi entrar.

                Na porta da casa novamente meu coração acelerou da maneira intensa. O suor escorria por meu rosto com velocidade assustadora. Porém, não havia nada “físico” que pudesse ter despertado toda aquela reação. Com um pouco de esforço, pude ver com os olhos apertados o interior da residência, a qual havia uma mesa antiga e duas cadeiras. Preparei-me para avançar em direção a uma das cadeiras e sentar. Minha vista, no entanto, estava escurecendo. Tudo estava esvaindo-se lentamente. Sentia um grande pulsar e estava completamente no escuro. Aliás, eu sentia o próprio escuro pulsar.

                Abri os olhos. Estava deitada em minha cama. Suada, quente e com o pulso acelerado. Peguei o celular na esperança de que fosse a hora de levantar, mas ainda não passavam das 3 da manhã. Desde então me lembro daquele sorriso e, principalmente, do olhar do velho – como se não houvesse nenhum patife no mundo a fazer sentir-me tão pequena e insignificante quanto me senti naquele momento.

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Textos Livres: Dança com a Finitude

Enquanto eu enrolo para poder atualizar os especiais e outras postagens do site, irei deixar alguns pequenos textos livres que tenho publicado aleatoriamente no Facebook.
Boa Leitura!
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Dança com a Finitude
            “E tudo aquilo que vi até hoje não me pareceu mais do que um longo passeio inseparável como a vontade de extinção, em que cada paisagem nada mais era que um belo retrato do ‘enamoramento’ – irreversível e não corrompível – com a finitude.Ainda que a Vida irradie a sua força, é inegável a atração com que o abraço de Thanatos exerce sobre a humanidade. Somos seduzidos, inteiramente apaixonados pela… ideia e a força do fim. Em cada cidade, cada bairro, cada esquina – flerta-se com a morte cotidianamente.A única certeza, essa imagem nítida que pode ser vislumbrada através das janelas [do ônibus, do carro, do prédio, da casa, dos olhos, da alma]. Cada corpo estirado ao chão e a aglomeração de transeuntes ao redor denunciam o espetáculo posto, gratuitamente exibido. Os olhos atentos não querem perder um instante, mil cochichos são disparados. Um show mórbido e diário.”

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In Solitude

Depois da turbulência vem a calmaria, portanto, após o carregado 2º semestre de 2013, cá estão as férias para trazer o ócio produtivo para postar neste blog. Então, deixo um pequeno texto surgido, ou melhor, inspirado em uma breve conversa com algum desconhecido em uma rede social (tema do texto que, aliás, já foi esboçado rudemente em um tempo longínquo no post Solidão ou estar só?):
As pessoas comumente falam de solidão, daquela feita por escolha própria, como se esta fosse uma cruz autoimposta. Afirmam com veemência que o dito ‘solitário’ é incapaz de se relacionar – talvez imaginando que este seja um extraterrestre impossibilitado de estabelecer qualquer tipo de vínculo.
Frequentemente confundem os termos solitude com solidão, estar sozinho, ser sozinho ou solitário. No entanto, nunca conseguem delimitar muito bem esses lugares e estados. No fim, lhes parece ser uma única coisa: que o ser “só” em questão é um completo amaldiçoado por rejeitar os laços afetivos fragilizados e líquidos da atualidade. Olham com certa estranheza, como se aquele que amasse os seus momentos “in solitude” fosse um animal esquisito e raro exposto em uma jaula no zoológico. Porém, fogem como o diabo da cruz frente a possibilidade de estarem em companhia plena de si mesmos.
Créditos: omswami.com
A estes, apenas cabe esclarecer que um solitário provavelmente não estaria lhes escrevendo, nem mesmo ousaria estar presente em uma rede social. O solitário é um afastado do convívio, seja espontaneamente ou pelas intempéries da vida, e sofre bastante por isso. Já alguém em Solitude, um amante de seus próprios momentos de “solidão”, não deixa de se compadecer com os outros, de afetar e deixar ser afetado, nem mesmo de estabelecer vínculos e relações humanas autênticas. Aliás, esse tipo de pessoa ama relações autênticas, preza pelas verdadeiras trocas e por compartilhar os momentos bons e ruins da vida com quem ama. Afinal de contas, se só nos podemos fazer “humanos” diante da presença do Outro, que pelo menos essa relação não seja estereotipada, objetal e perversa.
Nós nascemos sós, crescemos sós e morreremos sós – ninguém poderá passar por essas experiências em nosso lugar. Podemos e devemos compartilhar essas experiências, mas nada irá nos distanciar delas e fazer com que deixemos de senti-las. A diferença é que, mesmo na correria do dia-a-dia, alguns desfrutam do prazer de se escutarem… Nem que seja por um instante.

Adendo: Piratas do Caribe 5

Já que estou – levando aos trancos e barrancos – um especial sobre a franquia Piratas do Caribe aqui no blog, não seria de mal grado falar do quinto filme previsto para 2016. Obviamente, a maioria dos portais de notícias e de entretenimento realizaram seus comentários e ofereceu-lhes melhores informações sobre aquele que até então vem a ser chamado de Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell no Tales. Por isso, não darei nenhuma notícia ou informação.

No entanto, ainda que eu mantenha certa expectativa e que provavelmente venha a assistir o filme em seu lançamento, é visível o desânimo e a desconfiança geradas por tal empreitada da Disney. Não é preciso muito para perceber isso, já que a história mostrou que quando uma franquia se torna extensa, está propensa ao desastre: e Piratas do Caribe está propensa ao naufrágio.

Enfim, chega de baboseiras e vamos continuar com os especiais (embora a cada filme da franquia fica mais difícil para meu senso de abstração formular alguma coisa utilizável). No próximo post voltaremos com o segundo filme, Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest, 2006). Yo-Ho!

- Mais notícias sobre Piratas do Caribe? Confiram aqui: Imdb, Omelete, CinePop.

Especial Piratas do Caribe: The Black Pearl e a Liberdade

Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no voo mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.” Raine Maria Rilke

 

Em um dos momentos de Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, o Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) encontra-se preso em uma ilha deserta com ninguém menos do que a senhorita Elizabeth Swann (Keira Knightley). Após algumas rodadas de rum e altamente influenciado pela companhia de Elizabeth, Sparrow conta o que há de tão precioso em ser pirata e, principalmente, em seu navio: o “Pérola Negra”. Ele diz, simplesmente tomado pela emoção, que “o Pérola Negra é… Liberdade”. Magnífico… Porém, o que se entende por essa palavra?

operolaLiberdade. Tão temida pelos espíritos fracos e tão aclamada pelos heróis. Amada pelos grandes ícones da humanidade, como T.E. Lawrence (o “Lawrence da Arábia”), por exemplo, que dedicaram todas as suas empreitadas e aventuras a fim de calcarem seus nomes sob o pilar da sabedoria; a Liberdade. Está presente nos mais rebuscados discursos, nas mais profundas indagações filosóficas. Há inúmeras definições e gente que tenta escapar de tentar defini-la. Para tal, vale a pena inicialmente recorrer ao dicionário Aurélio, em que ela é definida como: “1. Faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação. 2. Estado ou condição do homem livre. 3. Confiança, intimidade (às vezes abusiva).” Em geral, as definições que se encontram da palavra liberdade sempre falam, em essência, do direito de exercer aquilo que lhe vier à sua vontade, sem que esse direito não vá contra o direito de outra pessoa..

No coloquial, falar de liberdade representa o poder de decidir as situações em que se é “livre” e as que não se é livre, de acordo com seus objetivos. Se as condições não permitem que um indivíduo exerça uma tarefa ou alcance seus objetivos, diz-se que ele não é mais livre. Em política, ela representa o manifestar das suas próprias ideias, defendido pela bandeira da liberdade de expressão, ainda que estas ideias sejam antagônicas ao modelo político em vigência². Há quem defenda, assim como a filósofa Viviane Mosé, de que a Liberdade seja um conceito nefasto. Citando Paul Valéry, ela salienta que “a liberdade é uma palavra que tem mais valor do que sentido, dia, canta mais do que fala”³.

???????????????????????????????????????????????Já para os existencialistas, o ser humano, que é um ser racional dotado de afeto e linguagem, é eternamente condenado a ser livre. Ele é em sua essência e ser a Liberdade, considerando que a existência precede a essência – e por isto não pode ser limitada. Eles ressaltam: a Liberdade não pode ser delimitada, pois esta é o fundamento de todas as essências. O homem então, dotado de liberdade, arca com as próprias escolhas e com as consequências das mesmas, algo enfatizado pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre. Condenado a ser livre, livre porque ainda não se criou e se definiu; condenado, pois uma vez posto ao mundo, é responsável por todas as suas escolhas. Para Sartre, o grande segredo da humanidade está profundamente ligado à liberdade. É a condição humana que o move em busca de uma verdadeira condição humana. E há um limite para a Liberdade? Sim, a própria na verdade.

De modo singelo, poderia dizer que a liberdade se faz pelo sentir. Um exemplo simples disso seria a sensação que alguns têm quando estão viajando por uma estrada: a face na janela no veículo, sentindo o vento acariciar a pele; um prelúdio para voar. Portanto, aqueles cujo espírito é livre e insaciável, que possuem a “pirataria” em seu sangue assim como Jack Sparrow, apenas se completam quando recebem o toque da liberdade, quando o vento os abraça e quando não há mais nada a se sentir e perceber; apenas o horizonte. Particularmente, é com essa imagem mental que defino a liberdade, nada menos. É essa a Liberdade do notório capitão a qual ganha vida através de sua querida embarcação de velas negras. É através dela que ele pode se sentir completo, somente no timão do navio que ele pode sentir-se livre. É por ela que ele luta, pois é seu instrumento para agir conforme sua própria vontade – e responsabilizar-se pelos seus atos. A Liberdade é como um navio que usamos para navegar pelo grande mar existencial chamado Vida.

Referências Bibliográficas:

  1. BARRETO, André. Temas em terapia existencial – Waldemar Augusto Angerami. Disponível em: <http://bcpandrebcp.blogspot.com.br/2012/01/temas-em-terapia-existencial-waldemar.html&gt;
  2. CAMON, Valdemar. Temas existencialistas: conceitos fundamentais. In: Psicoterapia Existencial. Cap.1.
  3. Fonte: Revista Filosofia, Ciência & Vida. Ano 1, nº 02. Entrevistador: Faoze Chibli.

O Lugar da Psicologia – Histórias de um País esquecido

ATENÇÃO: A descrição abaixo é fictícia e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Nada aqui é real. Ou não…
                Era uma vez, em um lugar não tão distante assim, um reino conhecido como o País da Psicologia. Um vasto país, cujo território e seus limites seus habitantes não saberiam dizer com exatidão nem quando começa e nem quando termina. Aliás, este país era [e ainda o é] habitado por indivíduos pertencentes a clãs diversos, os quais também podem ser chamados de “igrejinhas” e, em última instância, até mesmo de “seitas”. Com uma população tão diversa e estratificada, há de se supor que o país viva em um contínuo conflito. De fato, os clãs, em toda a história do desenvolvimento do país da Psiquê, digladiavam entre si, na esperança de suprimir os clãs vizinhos e subjugá-los a suas ideias, formas de enxergar o mundo, modos de agir etc. – ou seja, viviam e ainda vivem brigando para saber quem detém a Verdade, na esperança de que o vencedor desta batalha convença aos outros de que seu lado é o único.
                Os clãs do país da Psicologia são divididos, em sua maioria, em: o clã do Comportamento, que possui hábitos bastante peculiares. São metódicos na execução de suas tarefas e ganharam a alcunha de “cientistas”. Saem fazendo experiências com tudo o que veem pela frente, preferencialmente com ratos (do tipo wistar) e pombos (e às vezes também com crianças birrentas). Costumam ser bastante indiferentes com o que se passa no país, porém vivem pronunciando aos quatro ventos sobre a importância de um ambiente propício e de comportamentosadequados para o desenvolvimento da nação. Há o pessoal do Inconsciente, que se gaba por ter inventado algumas práticas que transformaram determinadas concepções e hábitos de todo o país da Psicologia. Passam a maior parte do tempo em elucubrações sobre processos inconscientes, sobre o determinismo da vida mental e sempre elencam o divã como mobília essencial para sua sobrevivência. Os membros do clã do Inconsciente acreditam em sua superioridade e possuem a utopia de que o mundo inteiro verá tudo sob sua ótica e estará sob seus pés. Os mais velhos são, diga-se de passagem, insuportáveis, arrogantes e por vezes bastante egoístas (principalmente aqueles que gostam de se exibir com o dialeto conhecido como “lacanês”). Há também aqueles filhos que divergiram das ideias do Pai Primevo do clã do Inconsciente. Tais crias dissidentes fundaram suas pequenas tribos que se estendem ao longo do País, mas nada em número e força tão expressivos quanto ao clã original.
Existe, em oposição aos dois clãs anteriores, o clã da Consciência. Em geral, os membros desse clã apregoam a Liberdade, a Responsabilidade, o Tempo e o viver no aqui e agora. Vivem dialogando e trocando experiências com o Velho Mundo, conhecido como Continente da Filosofia. Os membros do clã Cognitivo compõem a parte mais “nova” do país. Possuem relações diplomáticas e amigáveis com o povo das terras da Neurociência. São joviais, até mesmo os mais antigos, também são ousados e adoram incomodar com suas fascinantes descobertas. Vivem carregando em baixo dos braços os textos religiosos conhecidos como CID e DSM.
Por fim, há o clã Social. É composto dos mais variados membros com as mais distintas características. São afáveis, porém se mostram bastante críticos, o que não é uma coisa ruim. Sempre questionam as relações diplomáticas do país, a situação econômica, a origem e os conflitos históricos, etc. Às vezes são chamados pelos outros clãs, em uma tentativa de ofendê-los, de “altruístas”. Os membros do clã Social são rechaçados pela maioria dos clãs, embora estes finjam com perfeição que defendam e apoiam as ideias deste clã. O país também é povoado por estrangeiros, organizados em várias pequenas tribos distintas que são chamadas, em geral, de Alternativas. Seus membros possuem costumes estranhos, meio hippes, adoram o misticismo e a prática de rituais, às vezes confundindo e mesclando as tradições do País da Psicologia com um bizarro liberalismo.
O país possui uma forma de governo dita como “amplamente democrática”, sendo que seus gestores e representantes são eleitos para governarem durante períodos determinados de tempo. Porém, como de praxe, a política do País da Psicologia também é abafada pela luta dos interesses pessoais dos clãs (geralmente, aqueles que estão no governo querem dominar tudo). Alguns políticos mais experientes fazem de tudo para se manterem no poder, pervertendo a democracia em uma ditadura às avessas. Por vezes acabam se desviando dos próprios interesses do país e de seus habitantes, preocupando-se excessivamente com os problemas e com a miséria dos países vizinhos –  são cegos para os problemas do próprio País. Sabem como é… É mais fácil cuidar do quintal do outro (e menos cansativo também). Assim, a política desse país se resume a uma mera e abominável politicagem.
Os habitantes do país possuem uma identidade, um número de registro, que deveria lembrá-los de seus direitos e de suas obrigações enquanto cidadãos. No entanto, eles invertem seus direitos e geralmente se esquecem totalmente de suas obrigações. Pressionam o governo sem saber o que devem cobrar e, na maioria das vezes, aceitam as migalhas e a maquiagem oferecidas pelos governantes. Em um paternalismo desenfreado, acham que o governo também deveria se responsabilizar pelos erros de cada indivíduo. Bela fantasia. Também não é difícil ouvir por aí os discursos sobre a igualdade, diversidade, acessibilidade e tudo aquilo que terminar com “dade” e que não for posto em prática. Infelizmente, quase tudo no país da Psicologia permanece apenas no discurso.
Em suma, pode-se dizer que o País da Psicologia é um país rico, vasto e populoso. Porém, está longe de ser unificado. Todos se odeiam e gastam parte de suas vidas querendo derrubar o tapete do outro. Talvez (quem sabe um dia) eles acordem e parem de brigar cegamente enquanto ainda há tempo…